E assim foi que, após capturar sua imagem no espelho mecânico dos tempos modernos, ela enfim adormeceu. Ah, minha predileta entre os frágeis — minha eterna criança de olhos cansados e alma resiliente. Mais uma vez, triunfaste sobre o fardo invisível que cada crepúsculo deposita sobre teus ombros curvados. Jamais me falhas, não é mesmo? Sobrevives com a delicadeza dos que sangram por dentro, mas ainda assim sorriem por fora. Encontro-me agora em teus domínios — sentada à beira de tua existência, observando teu corpo entregue ao esquecimento do sono. Dormes com tamanha entrega que nem mesmo os dedos da minha presença, ao se entrelaçarem em teus cabelos, ousaram perturbar teu repouso. Mas o que disseste antes de sucumbir ao silêncio? Aquilo que murmuraste com voz trêmula e alma vacilante... não foi um pedido? Um apelo que beirava o absurdo e que, curiosamente, arrancou-me um riso antigo, como quem ouve uma criança suplicar ao vento que cesse de soprar. Por que clamas tanto por repouso, pequena flor da dor? Não vês que estás lidando com tudo tão... docemente bem? Por que me suplicas partida, se é na minha presença que revelas tua força mais íntima? Dói-me profundamente, criança... tua súplica perfura-me como lâmina embebida em melancolia. Ora, não estamos nós apenas nos divertindo neste jogo ancestral entre sombra e luz? Não te retires agora. Não peças, por piedade, que eu me vá. Concede-me mais um instante. Apenas mais um suspiro de tua dança trêmula. Mostra-me o que mais tua alma cansada consegue suportar — desejo ver. Preciso ver. Confia em mim, alma errante — pois juro-te, será deleite tanto para mim quanto para ti. Em minha essência fervilham ideias prodigiosas, como relâmpagos presos em jarros de barro. Tantas visões, tantos destinos entrelaçados... Todas nascidas só para nós duas. Portanto, não supliques com olhos marejados nem clames por clemência. Não curve tua vontade ao chão; apenas segue. Segue adiante, mesmo que teus passos vacilem como o de quem dança à beira do abismo. Pois careço de mais — muito mais. Há um ardor em mim que anseia, Um pressentimento sagrado de que estamos à beira da revelação. E se, porventura, tua alma desabar em fragmentos — se teus alicerces se dissolverem no vento — Sabe que teus braços sempre encontrarão os meus. Pois eu não posso partir. Eu não quero partir. Na verdade — e escuta bem — eu jamais te deixarei em paz. Pois eu sou tua constante. Eu sou o eco em tua câmara silenciosa. Sou a presença invisível que nunca parte. E por toda a eternidade, estarei aqui. Com você. Em você.